Quando foi que deixamos de fazer coisas pela primeira vez?

Esses dias me peguei pensando em uma coisa curiosa: quando foi a última vez que fiz alguma coisa pela primeira vez?

Não estou falando de grandes aventuras, viagens para lugares distantes ou decisões capazes de mudar completamente a nossa vida. Estou falando daquelas pequenas descobertas que, sem percebermos, vamos deixando pelo caminho.

Experimentar um sabor diferente. Conhecer um lugar novo. Aprender algo que sempre tivemos vontade. Dançar sem saber os passos. Aceitar um convite inesperado. Ou simplesmente fazer alguma coisa sem ter certeza de que vai dar certo.

Quando somos jovens, quase tudo é novidade. A vida parece uma sucessão de primeiras vezes. Temos medo, claro, mas também uma curiosidade enorme pelo que ainda não conhecemos.

Depois, os anos passam.

A gente amadurece, conquista experiências, aprende a reconhecer os caminhos mais seguros e, quase sem perceber, começa a escolher sempre aquilo que já conhece.

O restaurante de sempre. O mesmo pedido do cardápio. Os lugares familiares. As conversas previsíveis. As escolhas que não oferecem grandes surpresas.

E não há nada de errado nisso. Existe um conforto delicioso naquilo que nos é familiar.

Mas será que, em algum momento, não confundimos conforto com acomodação?

Tenho pensado muito sobre isso.

Talvez uma das armadilhas da maturidade seja acreditar que, depois de determinada idade, já sabemos o suficiente, já vivemos o bastante e já não precisamos experimentar tantas coisas novas.

Mas quem foi que disse que existe prazo de validade para a curiosidade?

Quem determinou que aprender a dançar, começar um curso, mudar o cabelo, viajar sozinha, descobrir um talento ou se permitir um novo amor são privilégios da juventude?

A verdade é que continuamos sendo mulheres em construção.

E gosto muito dessa ideia.

Porque ela nos tira a obrigação de termos todas as respostas e nos devolve o direito de continuar fazendo perguntas.

Confesso que, com o passar dos anos, também fui criando minhas certezas, minhas preferências e até algumas resistências. Afinal, depois de tantas experiências, é natural acreditar que já conhecemos bem nossos gostos e limites.

Mas, de vez em quando, a vida nos surpreende.

E descobrimos que ainda somos capazes de gostar daquilo que antes não gostávamos, de aprender algo que parecia difícil ou de encontrar alegria onde jamais imaginávamos.

Talvez o segredo esteja justamente em não perder essa disposição para o novo.

Não precisamos mudar tudo, virar a vida de cabeça para baixo ou provar absolutamente nada a ninguém.
Às vezes, basta dizer sim quando a nossa primeira reação seria dizer não.

Basta trocar o caminho habitual, aceitar aquele convite, começar uma conversa ou permitir que a curiosidade fale mais alto que o receio.

E, convenhamos, existe uma liberdade maravilhosa em chegar a uma fase da vida em que já não precisamos ser tão boas em tudo.

Podemos começar do zero. Podemos errar. Podemos rir de nós mesmas. Podemos descobrir que não levamos jeito para determinada coisa e, ainda assim, nos divertir tentando.

Porque nem toda experiência precisa se transformar em conquista. Algumas existem apenas para nos fazer felizes.

Tenho a impressão de que envelhecer bem não é somente acumular histórias para contar. É também continuar criando histórias que ainda não aconteceram.

É olhar para a vida e perceber que, apesar de tudo o que já vivemos, ainda existe tanto por descobrir.

E talvez seja essa uma das formas mais bonitas de permanecer jovem por dentro: conservar a capacidade de se encantar.

Por isso, deixo uma pergunta para nós, mulheres que seguimos aprendendo a viver:

Quando foi a última vez que fizemos alguma coisa pela primeira vez?

Se a resposta demorar a chegar, talvez esteja na hora de criar uma nova lembrança.

Porque a vida não termina quando deixamos de ser jovens.

Ela continua acontecendo enquanto tivermos coragem de viver novas primeiras vezes.

Até o próximo Papo de Saia!

Cris Petry