Hoje um milagre dura, no máximo, até a próxima atualização.
Faz pouco tempo e digo pouco no sentido literal, não no sentido nostálgico, que abrir um navegador e digitar três palavras no Google era o gesto mais moderno que uma pessoa comum podia executar. Era o oráculo. Era ali que a gente ia checar sintoma estranho, receita de bolo, ano de morte de artista, endereço de restaurante.
Essa é a parte que me pega. Não a máquina a naturalidade em que chega e usamos ela.
Toda revolução tecnológica tem duas populações: os que tiveram que aprender e os que já nasceram sabendo. Eu aprendi a usar computador. Meu filho não aprendeu nada, ele simplesmente estava lá quando o mundo mudou de forma. Ele não vê a novidade porque, para ele, não há novidade. E aqui está o detalhe cruel da coisa: quem tem trinta e poucos anos, como eu, ficou exatamente na dobra da página. Velho demais para ser nativo, novo demais para ter direito ao espanto. A gente vive num limbo esquisito, onde é preciso aprender rápido só para não parecer que parou.
Os mais jovens chamam de "farmar aura" essa coisa de acumular presença, estilo, relevância, um capital simbólico que não se compra e não se explica, só se performa. E eu confesso que a expressão me diverte e me assusta em doses iguais. Porque parece brincadeira de internet, mas descreve com precisão quase científica o que todos nós andamos fazendo: colecionando sinais de que ainda estamos por dentro. O medo de ficar obsoleto virou o novo medo de escuro.
Mas o que me tira o sono, quando tiro os olhos da minha própria vaidade geracional, é outra coisa.
Se a resposta chega antes da pergunta amadurecer, o que acontece com a pergunta?
Criatividade não é um talento que brota pronto. É um músculo que se forma no atrito. Nasce do tédio da tarde de domingo, da folha em branco que resiste, da segunda e da terceira tentativa de dizer aquilo que na primeira saiu torto. Nasce, principalmente, do tempo morto, aquele intervalo improdutivo em que a cabeça vagueia e, sem pedir licença, junta duas coisas que não tinham nada a ver uma com a outra. Foi ali, nesse ócio, que nasceu tudo que nos orgulha como espécie.
E o tempo morto é justamente o que estamos eliminando com mais eficiência.
Não sou apocalíptico. Já ouvi essa música antes: disseram que a calculadora ia acabar com a matemática, que o corretor ortográfico ia acabar com a escrita, que a Wikipédia ia acabar com o estudo. Nenhuma dessas profecias se cumpriu direito. O que aconteceu, sempre, foi um deslocamento: a habilidade migrou de lugar. Deixamos de decorar números de telefone e passamos a gerenciar redes de contatos. Deixamos de saber somar de cabeça e passamos a saber o que perguntar à planilha.
Talvez seja isso de novo. Talvez a habilidade da próxima geração não seja produzir a resposta, mas formular a pergunta certa e, sobretudo, saber reconhecer quando a resposta é bonita e falsa. Isso não é pouco. Isso, aliás, é bastante difícil.
Mas há uma diferença que não consigo ignorar. A calculadora automatizou o cálculo. O corretor automatizou a ortografia. Estas ferramentas novas automatizam o rascunho. E o rascunho não é uma etapa burocrática do pensamento: o rascunho é o pensamento. É escrevendo mal que a gente descobre o que quer dizer. Quem pula o rascunho não economiza tempo. Economiza a si mesmo.
Daí o paradoxo que dá título aos nossos dias: nunca foi tão simples fazer, nunca foi tão complicado saber o que fazer. Qualquer pessoa hoje produz um texto, uma imagem, uma trilha, um vídeo, um plano de negócios, em minutos. A execução virou commodity. E quando a execução vira commodity, o que sobra de valioso é exatamente aquilo que a máquina não tem: critério, gosto, história pessoal, cicatriz. A tecnologia democratizou o "como" e devolveu todo o peso para o "por quê".
Então talvez a pergunta não seja como sobreviver a um mundo que muda o tempo todo. Talvez seja mais simples e mais dura: o que em mim vale a pena não terceirizar?
Eu tenho uma resposta provisória, dessas que a gente escreve sabendo que vai revisar em seis meses. Terceirize o trabalho chato. Terceirize a formatação, a pesquisa preliminar, a versão zero. Mas não terceirize o incômodo. Não terceirize a hora em que você não sabe o que pensa sobre alguma coisa e precisa ficar sentado com isso até saber. Essa hora é a única fábrica de gente que existe.
E, no fim, adaptar-se talvez seja menos correr atrás e mais escolher onde parar. Nós vamos precisar numa velocidade que uma pessoa dos anos 70 não teria conseguido imaginar.
Enfim. Já usei o meu hoje, três vezes antes do almoço. Não me orgulho nem me envergonho, assim como não me orgulho de ter usado o elevador. A máquina subiu comigo. Mas o andar, esse eu ainda escolho.
E você, já usou o seu hoje?



