Estamos vivendo um dos momentos mais transformadores da história da comunicação. E não digo isso como frase de efeito de colunista empolgado com tecnologia.

É só olhar ao redor.

Hoje, uma pessoa com um celular na mão consegue fazer coisas que, poucos anos atrás, exigiam equipe, dinheiro, estrutura e muito tempo. É possível criar uma marca, editar um vídeo, testar uma ideia, desenvolver um projeto, aprender uma habilidade, conversar com uma inteligência artificial e resolver um problema às duas da manhã sem precisar pedir autorização para ninguém.

Criatividade, tecnologia e empreendedorismo deixaram de morar em salas separadas.

Está tudo misturado.

E o mercado, como sempre, não tem muita paciência para esperar ninguém entender o que está acontecendo. Ele muda primeiro e explica depois.

Quem aprende a usar as novas ferramentas ganha possibilidades. Quem ignora completamente as mudanças corre o risco de, aos poucos, virar espectador do próprio negócio.

Mas existe uma parte dessa transformação que me chama ainda mais atenção.

No meio de tanta ferramenta, tanta rede social e tanta gente produzindo conteúdo, praticamente todo mundo virou um pouco influenciador.

Mesmo quem não se considera um.

Quando você recomenda um restaurante no grupo da família, influencia. Quando fala bem de um hotel para um amigo, influencia. Quando critica um serviço no Instagram, influencia. Quando compartilha uma experiência, uma opinião ou uma descoberta, alguém do outro lado pode tomar uma decisão por causa daquilo.

Só que a disputa mudou.

Durante muito tempo, a obsessão foi pelo alcance.

Quantas visualizações?

Quantos seguidores?

Quantos cliques?

Quantas curtidas?

Agora começamos a perceber que milhões de pessoas olhando para você não significam necessariamente alguma coisa.

Porque olhar é fácil.

Confiar é outra história.

Você colocaria o nome de uma empresa que levou dez, vinte ou trinta anos para ser construída nas mãos de alguém apenas porque essa pessoa tem meio milhão de seguidores?

Provavelmente não.

Principalmente se aqueles números não representarem comunidade, credibilidade ou conexão alguma.

É por isso que acredito que influência de verdade tem cada vez menos relação com fama e cada vez mais relação com responsabilidade.

As marcas também começaram a entender isso.

Já não basta simplesmente aparecer.

É preciso pertencer à conversa.

É preciso que exista coerência entre quem fala, aquilo que fala e aquilo que representa.

E, principalmente, precisa existir humanidade.

Talvez seja justamente esse o paradoxo mais interessante do nosso tempo: quanto mais tecnologia temos à disposição, mais valiosa fica uma coisa que nenhuma ferramenta consegue fabricar por completo a confiança entre pessoas.

Por isso a pergunta talvez não seja mais:

“Como eu viro influenciador?”

Talvez seja:

Como eu me torno alguém em quem as pessoas confiam?

E isso vale para um criador de conteúdo, para uma empresa, para um veículo de comunicação, para um vendedor, para um político, para uma marca e para qualquer pessoa que decida colocar uma opinião no mundo.

Outro dia, inclusive, me deparei com uma notícia dizendo que os jovens estariam caindo em golpes virtuais em proporções que surpreendem quando comparadas às gerações mais velhas.

Fiquei pensando nisso.

Será excesso de confiança? Pressa? Familiaridade demais com o ambiente digital? Aquela sensação de que, por ter crescido conectado, sabemos reconhecer tudo o que acontece atrás de uma tela?

Esse assunto merece outra coluna.

Mas ele deixa uma provocação importante para esta: saber usar tecnologia não significa necessariamente saber em quem confiar.

Nem toda imagem é verdadeira.

Nem toda informação é confiável.

Nem todo perfil representa quem diz representar.

Nem toda resposta de uma inteligência artificial está certa.

E nem toda pessoa do outro lado da tela merece a nossa confiança apenas porque aprendeu a parecer convincente.

Talvez durante muitos anos a grande batalha da comunicação tenha sido conseguir fazer alguém olhar para nós.

Hoje, isso já não basta.

Porque, no fim das contas, a pergunta mais importante não é quantas pessoas conseguem te ver.

É quantas delas, depois de te conhecer, ainda escolhem acreditar em você.