Em pleno 2026, o lazer ganhou uma atualização silenciosa. Depois de um dia cansativo, de uma tarde entediante ou no meio da tão esperada folga, basta sentar e começar a deslizar o dedo pela tela. Um vídeo engraçado, uma receita, uma discussão, uma notícia. Quando olhamos o relógio, passou uma hora. Às vezes, mais. E é difícil lembrar o que, de fato, vimos durante todo aquele tempo.
Livros, televisão, filmes e videogames continuam fazendo parte da nossa vida. Mas os vídeos curtos se encaixaram em espaços onde antes talvez não coubesse nenhuma dessas opções. Cabem nos minutos antes de dormir, na espera pelo almoço, no intervalo de uma conversa. Crianças e adultos repetem o mesmo gesto. Sempre há alguma coisa para assistir. A decisão de parar vai ficando para depois do próximo vídeo.
O que me intriga é o destino daquele tempo aparentemente vazio. Na fila de espera, no ônibus, no aeroporto, até um pequeno intervalo pode ser preenchido pela tela. Muitas vezes, pegamos o celular sem procurar nada em especial. Basta surgir uma pausa. Ficamos tão acostumados a ter alguma coisa diante dos olhos que alguns minutos sem estímulo já parecem difíceis de suportar.
Esses intervalos também podem servir para pensar na própria vida. Rever uma conversa, perceber uma preocupação, imaginar uma solução ou simplesmente observar quem está por perto. Nem todo silêncio precisa render uma grande ideia. Mas, se ocupamos cada brecha com o que os outros dizem, em que momento conseguimos ouvir o que nós mesmos estamos pensando?
A inteligência artificial pode ajudar a estudar, organizar ideias e compreender assuntos difíceis. Há muito a ganhar com isso. Só que o benefício depende também da maneira como usamos a ferramenta. Podemos pedir uma explicação e tentar entendê-la. Podemos também copiar uma resposta sem saber como se chegou até ela. Nas duas situações, a tarefa parece resolvida. O que aprendemos em cada uma pode ser bem diferente.
Essa facilidade merece atenção quando chega às nossas opiniões e decisões. Se pedimos que uma ferramenta escolha as palavras, interprete uma situação e diga o que devemos fazer, precisamos continuar participando desse processo. Questionar a resposta, conferir se faz sentido, discordar. Uma frase bem escrita pode convencer mesmo quando está errada. E uma decisão continua tendo consequências na nossa vida, ainda que tenha sido sugerida por uma máquina.
Às vezes, dá vontade de perguntar se as pessoas eram mais felizes quando não estavam conectadas o tempo todo. Não tenho essa resposta. Os anos 1980 também tinham dificuldades, solidão e problemas que a tecnologia ajudou a enfrentar. Mas havia uma diferença prática: sair de casa significava, muitas vezes, ficar indisponível. Hoje, podemos sentir a obrigação de explicar por que demoramos vinte minutos para responder a uma mensagem.
Podemos fazer uma chamada de vídeo de madrugada com alguém no Japão. É extraordinário. O cuidado está em transformar essa possibilidade em obrigação, como se estar ao alcance significasse estar sempre à disposição. A reunião cabe na agenda porque existe uma conexão. O horário de descanso acaba cedendo. Aos poucos, até o tempo livre precisa ser defendido.
E há a cena dos casais no restaurante, cada um envolvido em uma conversa no celular. A pessoa distante recebe atenção enquanto a que está à frente espera. Seria fácil julgar olhando de fora. Mais difícil é perceber quantas vezes fazemos algo parecido: respondemos a alguém enquanto outra pessoa tenta nos contar como foi o dia.
Também vale perguntar o que esperamos do nosso lazer. Assistir a vídeos pode ser divertido, e ninguém precisa transformar toda folga em uma atividade produtiva. Mas convém perceber como estamos depois. Descansamos? Aproveitamos aquele tempo? Ou apenas continuamos rolando a tela, mesmo sem vontade, porque parar exigiria uma decisão?
Preocupa-me imaginar uma rotina em que até as nossas opiniões cheguem prontas, enquanto as conversas com quem está perto ficam para depois. Que espaço estamos deixando para prestar atenção nos filhos ou elaborar uma ideia sem interrupções? A tecnologia já participa de tudo isso. Cabe a nós perceber quando ela ajuda e quando estamos entregando a ela uma parte da vida que gostaríamos de viver com mais atenção.
Na próxima vez que surgir um intervalo, talvez valha deixá-lo vazio por alguns minutos. Sem a obrigação de aprender, produzir ou assistir a alguma coisa. Só para descobrir o que vem à cabeça quando a tela não escolhe o próximo assunto.







