Durante muito tempo, imaginamos que uma eleição era decidida principalmente nos palanques, nos debates, nos programas de televisão e, finalmente, diante da urna. Hoje, boa parte dessa decisão acontece muito antes, silenciosamente, na tela de um celular.

A inteligência artificial não possui título de eleitor, não enfrenta fila e não aperta o botão “confirma”. Mesmo assim, ela pode participar de quase todas as etapas que antecedem o voto: escolher quais conteúdos chegam até nós, identificar nossos medos, produzir mensagens personalizadas, criar imagens falsas, imitar vozes e fazer uma determinada narrativa parecer mais popular do que realmente é.

Quando se fala em IA nas eleições, pensamos imediatamente nas chamadas deepfakes: vídeos e áudios extremamente realistas nos quais um candidato parece dizer ou fazer algo que nunca aconteceu. Esse é um risco evidente, mas talvez nem seja o mais perigoso.

Uma montagem grosseira pode ser descoberta. Um vídeo falso pode ser desmentido. O problema mais profundo está na influência que quase não percebemos.

As plataformas digitais conhecem nossos interesses, hábitos, localização, preferências e reações. A partir dessas informações, campanhas e grupos políticos conseguem produzir mensagens diferentes para públicos diferentes. O mesmo candidato pode se apresentar como moderado para um eleitor, radical para outro, defensor de determinada pauta em uma região e silencioso sobre ela em outra.

A política deixa de falar para uma multidão e passa a sussurrar individualmente no ouvido de cada pessoa.

Um estudo publicado em 2025 na revista científica *Nature Communications*, realizado com 4.829 participantes, mostrou que mensagens produzidas por modelos de inteligência artificial foram capazes de influenciar opiniões sobre diferentes políticas públicas. Em vários casos, tiveram eficácia semelhante à de textos escritos por pessoas. A diferença é que a IA consegue fazer isso com velocidade, baixo custo e em uma escala praticamente ilimitada.

Para interferir em uma eleição, porém, nem sempre é necessário convencer alguém a trocar de candidato. Em uma disputa apertada, pode ser suficiente aumentar a rejeição, criar dúvida, alimentar o medo ou desmotivar parte do eleitorado.

Uma informação falsa sobre o local de votação pode impedir alguém de votar. Um áudio fabricado, divulgado na véspera da eleição, pode criar um escândalo quando já não há tempo para esclarecimentos. Uma rede de perfis automatizados pode produzir a falsa impressão de que determinada opinião representa a maioria.

Nesse ambiente, a mentira não precisa permanecer verdadeira por muito tempo. Ela só precisa sobreviver até o fechamento das urnas.

Existe ainda outro efeito preocupante. À medida que imagens, vídeos e vozes podem ser falsificados, conteúdos verdadeiros também começam a ser colocados em dúvida. Um candidato confrontado com uma gravação legítima pode simplesmente afirmar que tudo foi produzido por inteligência artificial. Quando qualquer coisa pode ser falsa, até a verdade perde força.

Talvez esse seja o maior perigo: não acreditarmos em uma mentira específica, mas deixarmos de acreditar na possibilidade de existir uma verdade verificável.

Isso significa que a inteligência artificial decidirá sozinha as próximas eleições? Não.

O voto continua sendo influenciado por fatores muito mais amplos: situação econômica, emprego, segurança, serviços públicos, identidade política, experiência pessoal e confiança nos candidatos. Pesquisadores que analisaram o ciclo eleitoral mundial de 2024 concluíram que muitos dos impactos atribuídos à IA foram exagerados e que os fatores sociais, econômicos e culturais ainda possuem um peso muito maior.

A IA não transforma automaticamente um candidato ruim em uma boa opção. Também não apaga problemas reais, não cria confiança verdadeira e não substitui o contato humano. Mas, em eleições definidas por pequenas diferenças, ela pode deslocar votos suficientes para alterar o resultado.

A tecnologia também não precisa ser vista apenas como ameaça. Ela pode traduzir propostas, tornar conteúdos acessíveis para pessoas com deficiência, facilitar a comparação entre programas de governo, identificar redes de desinformação e ajudar jornalistas e eleitores a verificar informações. A mesma ferramenta que fabrica uma mentira pode colaborar para descobri-la.

Para as eleições de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral estabeleceu regras mais rígidas. Conteúdos produzidos ou significativamente alterados por inteligência artificial devem ser identificados de maneira explícita. Deepfakes e conteúdos falsos destinados a favorecer ou prejudicar candidaturas são proibidos. O TSE também restringiu a publicação de novos conteúdos sintéticos nas 72 horas anteriores e nas 24 horas posteriores ao pleito.

A regulamentação é necessária, mas enfrenta um adversário veloz. Uma decisão judicial demora. Uma mentira bem construída pode atravessar milhares de grupos em poucos minutos.

Por isso, a defesa da democracia não dependerá apenas da Justiça Eleitoral ou das plataformas. Dependerá também da imprensa, das campanhas e, principalmente, de cada cidadão.

Antes de compartilhar um vídeo surpreendente, será preciso verificar sua origem. Antes de acreditar em um áudio recebido em um grupo, será necessário procurar outras fontes. E, quando uma informação parecer confirmar perfeitamente tudo aquilo que já pensamos, talvez seja justamente o momento de desconfiar.

A inteligência artificial não entrará na cabine de votação conosco. Mas poderá caminhar ao nosso lado durante toda a campanha, escolhendo o que vemos e sugerindo aquilo que devemos temer.

O voto continuará sendo humano. A responsabilidade sobre ele também.