André Lima vai do Natal ao Carnaval com a mesma arte de transformar emoção em cada espetáculo

Poucos profissionais tiveram a oportunidade de viver intensamente dois dos maiores espetáculos da cultura brasileira. Durante quase quinze anos, este gramadense de coração, André Lima, ajudou a construir a magia do Natal Luz de Gramado, um dos mais importantes eventos natalinos do mundo. Entre palcos, figurinos, maquiagem, caracterização, direção artística e criação, aprendeu que um grande espetáculo não nasce apenas das luzes ou dos aplausos, mas do trabalho silencioso de quem dedica a vida a emocionar pessoas.

Anos depois, esse mesmo artista encontraria um novo palco: a Avenida. A passarela do samba.

O que começou entre a neve cenográfica, os sinos e a magia do Natal transformou-se em uma trajetória que hoje ecoa no som das baterias, no brilho das fantasias e na grandiosidade do carnaval. Mas, essa mudança nunca significou abandonar uma história para começar outra.

“Para muitos artistas, um espetáculo termina quando as cortinas se fecham, para mim, é justamente ali que ele começa”, conta emocionado.

Na verdade, André Lima apenas mudou o cenário. A missão permaneceu a mesma: transformar sentimentos em arte e fazer da emoção a protagonista de cada espetáculo.

Foi essa trajetória, construída passo a passo, dos bastidores aos cargos de direção, da criação de figurinos às grandes concepções artísticas, que o conduziu até um dos momentos mais importantes de sua carreira: assumir, ao lado de sua parceira criativa, Pacini, o carnaval da Bambas da Orgia, uma das mais tradicionais escolas de samba do Sul do Brasil.

Onde tudo começou:

Mas vamos saber como tudo começou.

O ano era 2011.

Foi no Natal Luz de Gramado que André teve seu primeiro grande contato com uma produção artística de grande porte. Ingressou no elenco do Grande Desfile de Natal e da tradicional Paradinha, vivendo a experiência do palco e compreendendo, desde cedo, a grandiosidade de um espetáculo construído por centenas de profissionais. “Sempre tive muita curiosidade que ia além dos refletores”, disse.

Enquanto muitos artistas encerravam sua jornada ao deixar o palco, André permanecia nos bastidores observando maquiadores, figurinistas, costureiras, cenógrafos e diretores. Queria entender como aquela magia era construída.

Pouco tempo depois, passou a atuar como auxiliar de maquiagem e auxiliar de arte final de figurinos. Foi ali que descobriu que sua vocação não estava apenas em interpretar personagens, mas também em criá-los.

Em 2013, recebeu um convite que marcou sua trajetória: interpretar um dos protagonistas do espetáculo “A Fantástica Fábrica de Natal”. Mesmo vivendo o protagonismo diante do público, jamais abandonou os bastidores. Continuou crescendo dentro da equipe artística, tornando-se maquiador dos grandes espetáculos do Natal Luz, entre eles o consagrado “Nativitaten”.

Sua dedicação, sensibilidade artística e capacidade de liderança fizeram com que assumisse a Direção Geral de Maquiagem e Caracterização, coordenando equipes e desenvolvendo a identidade visual de centenas de artistas que, ano após ano, davam vida ao imaginário natalino.

A arte de vestir histórias:

Naturalmente, seu olhar criativo passou a dialogar cada vez mais com o figurino. André assumiu a função de Figurinista Geral de todos os eventos do Natal Luz, coordenando processos criativos e desenvolvendo coleções que precisavam unir estética, funcionalidade e narrativa. “Cada figurino deixava de ser apenas uma roupa, passava a ser um personagem”, relata.

Nesse mesmo período, integrou a equipe de criação do espetáculo “Grande Desfile – Uma Noite de Natal”, colaborando diretamente na construção artística de uma das atrações mais emblemáticas de Gramado.

E mais: durante seis edições, assinou os figurinos do Festival de Cinema de Gramado. Em paralelo, foi responsável pelos figurinos da tradicional Festa da Colônia durante sete edições consecutivas, reafirmando sua versatilidade e sua capacidade de criar para diferentes universos culturais.

Depois de quase quatorze anos dedicados aos maiores eventos da Serra Gaúcha, André sentiu que era hora de buscar novos horizontes. E esta mudança o levou para São Paulo.

Foi onde assumiu a Direção Artística do espetáculo “Natal in Concert”, em Piracicaba, levando consigo toda a experiência adquirida em Gramado. Também se tornou Diretor de Criação da Cia. ASA, ampliando sua atuação no desenvolvimento de conceitos artísticos, figurinos, cenografia e direção criativa.

Cada novo desafio consolidava um profissional capaz de unir criatividade, organização e sensibilidade em produções de grande escala.

Quando a Avenida chamou o criador:

Em 2025, André retornou ao Rio Grande do Sul. O destino, dessa vez, era o carnaval.

Foi convidado para assumir a cenografia da Unidos de Vila Isabel, de Viamão, no Grupo Ouro do Carnaval de Porto Alegre. Era sua primeira experiência em uma escola de samba.

Logo em seu primeiro desfile, a escola conquistou o terceiro lugar e recebeu diversos reconhecimentos, entre eles prêmios de Melhor Alegoria, demonstrando que sua experiência em grandes espetáculos dialogava naturalmente com o universo carnavalesco.

No ano seguinte, veio um novo desafio. Em 2026, André assumiu como carnavalesco da Unidos de Vila Isabel. Era sua estreia na função responsável por conceber artisticamente um desfile inteiro. Mais uma vez, os resultados apareceram.

A escola alcançou o quarto lugar no Grupo Ouro, conquistou diversos Estandartes de Ouro e André foi eleito Carnavalesco Destaque em premiação popular na internet, consolidando seu nome entre os novos talentos do carnaval gaúcho. Mais do que resultados, era a confirmação de que toda a sua trajetória o preparara para aquele momento.

Este reconhecimento despertou o interesse de uma das instituições mais respeitadas do carnaval do Sul do país. Em 2026, André Lima e sua parceira criativa, Pacini, receberam o convite para assumir o carnaval da Bambas da Orgia. Carnaval que acontecerá em 2027.

Com 86 anos de história, inúmeros títulos e reconhecida como uma das mais antigas escolas de samba em atividade no Sul do Brasil, a Bambas da Orgia representa muito mais do que uma agremiação. É um patrimônio cultural do carnaval gaúcho. “Assumir esse legado significa receber a responsabilidade de preservar uma história construída por gerações, ao mesmo tempo em que se projeta o futuro”, relata.

Para André Lima, esse convite simboliza a confiança em uma nova geração de artistas — profissionais que compreendem a importância da tradição, mas acreditam que ela pode caminhar ao lado da inovação.

Ao lado de Pacini, chega à Bambas da Orgia disposto a escrever novos capítulos, respeitando profundamente a identidade da escola e de sua comunidade, sem abrir mão de um olhar contemporâneo sobre o fazer carnavalesco.

Realizado profissionalmente, e ao olhar para trás, André Lima não enxerga apenas cargos ou funções. Enxerga uma trajetória construída passo a passo. E com certeza, antes de liderar equipes, aprendeu a segui-las. Antes de dirigir artistas, viveu o palco. Antes de criar figurinos, ajudou a finalizá-los. Antes de desenhar grandes espetáculos, compreendeu o valor de cada profissional que trabalha longe dos refletores. “Talvez seja justamente essa vivência que hoje consigo definir minha forma de criar.

Ao aceitar o convite para assumir, ao lado de Pacini, o carnaval da Bambas da Orgia, André não inicia uma nova história. Ele dá continuidade a uma trajetória construída ao longo de mais de uma década de trabalho, estudo e dedicação à arte. Uma trajetória que começou sob as luzes do Natal Luz de Gramado e encontrou, na Avenida, um novo palco para emocionar multidões.

“Porque os cenários mudam, as estações do ano também, mas minha missão permanece exatamente a mesma, transformar ideias em arte, transformar arte em emoção e e fazer com que cada espetáculo permaneça vivo na memória das pessoas muito depois que as luzes se apagam e o último surdo silencia”, conclui André Lima ao Blog do Gerson.

Fotos – divulgação/Redes Sociais